É apenas um dos adágios populares que caracteriza o primeiro mês do ano. Já assim era há muitos anos, lá pelo primeiro lustro da década de sessenta, no Século passado.
Como referi aqui, o Posto Escolar Misto de Cavenca acolhia os jovens do lugar que integravam as quatro classes do ensino primário, hoje designado primeiro ciclo do ensino básico, e também os do lugar de Lijó, com excepção daqueles que “desertaram” para a Gave que ficava mais ou menos equidistante embora já se situasse no vizinho concelho de Melgaço.
Entre outros, integravam o grupo de estudantes de Lijó os meus primos, dois meninos mimados e cagarolas que quase todos os dias se queixavam à mãe das “maldades” que lhes faziam os “compagnons de route”.
De tal modo que, por acordo entre as famílias, passaram diariamente a ser “escoltados” por um dos primos de Cavenca, um pouco mais velhos e que, por isso, “impunham” respeito no grupo.
Para mim não era nenhum sacrifício, pelo contrário, estava sempre pronto para os acompanhar, principalmente porque em casa dos meus tios havia sempre boa comida e camas frescas, a contrastar com a invariável escassez alimentar e os velhos frangalhos que guarneciam os catres mal amanhados da casa dos meus pais.
Naquele dia, um ensolarado e lindo dia de Janeiro, foi a minha vez. Fora um dia magnífico, cheio de sol resplandecente e, no final das aulas, que se desdobravam pelos dois períodos do dia e terminavam pelas cinco horas da tarde, lá vou eu, ladeira abaixo, a velha e sebosa sacola com os objectos escolares a tiracolo, andrajoso e… descalço.
Distam os dois lugares cerca de dois quilómetros e, de Cavenca, situado a uma cota entre seiscentos e setecentos metros, a Lijó, cuja cota anda pelos trezentos e cinquenta metros, é quase sempre a descer. Escusado será dizer que em sentido contrário se dá o inverso.
Os caminhos eram bem conhecidos do grupo que ora se deslocava pelo monte do Teso, ora atalhava pelos Estieiros e tudo decorreu como habitualmente, isto é, fazer os deveres, desenvolver algumas brincadeiras e actividades domésticas tais como levar a velha Carriça a beber e regressar num galope desenfreado quais índios em plena pradaria, cear e… cama, que no outro dia há que recomeçar tudo.
No dia seguinte, manhã bem cedo, levantamo-nos e, como de costume, minha tia mandou-nos buscar água fresca à fonte da Aveleirinha para confeccionar a água de unto que nos iria sustentar até ao meio-dia. Foi nesse pequeno percurso que me apercebi da imensa camada de geada que se tinha formado no solo durante a noite, traiçoeiramente, silenciosamente, em segredo, branca, brilhante e… gelada!
Senti-a açoitar-me as encortiçadas solas dos pés descalços mas não me intimidei. Aqueles mesmos pés já tinham pisado gelo, neve, pedras, tojo e toda a casta de abrolhos, até aberto ouriços dos castanheiros para lhes arrancar as castanhas quando teimavam em ficar sérios e carrancudos sem largar o precioso fruto.
Depois do frugal pequeno-almoço pusemo-nos a caminho. Estava convencido que após uns metros de caminhada o sangue havia de fluir e aquecer as extremidades geladas mas não. Quanto mais pisava o solo gelado mais frio sentia nos pés. Quando começamos a subida dos Estieiros as dores já eram insuportáveis.
Ao lado do caminho a água no rego rumorejava feliz, indiferente ao meu sofrimento, e casualmente mergulhei um pé… Foi agradável, a água estava quente, mergulhei os dois, deixei que o gelo derretesse. Assim que senti o alívio das dores recomeçamos a caminhada. Os meus companheiros observavam consternados a minha titânica luta contra o frio mas nada podiam fazer. Por mais algumas vezes mergulhei os pés na água que mais depressa arrefeciam quando trilhava os cristais de gelo na terra dura redobrando as dores.
O percurso era agora um estreito carreiro, pelo meio do pinhal, e já não havia mais cursos de água por perto. Chorei com as mágoas dos pés dormentes e gelados mas continuei a caminhada. Vencemos a última calçada e chegamos finalmente à Escola, já o sol começava a aquecer o planeta e… os meus sofridos pés.
O sangue recomeçou então a circular por todas as extremidades e quando chegou a hora de entrar para as aulas já o pior tinha passado.
E que bem se estava agora na frigidíssima sala com os pés suspensos da confortável carteira…
Isto não é propriamente um blogue. É apenas um espaço para expandir trabalhos que, pela sua dimensão, tornem fastidiosa a sua leitura no Memórias.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Janeiro Geadeiro
domingo, 30 de novembro de 2008
Toponímia de Cavenca
Temos por hábito não questionar os nomes através dos quais relacionámos tudo que nos rodeia porque nos acostumámos desde muito cedo a ouvi-los, escrevê-los e relacioná-los com pessoas, com lugares, com coisas. E se de algum modo nos ocorre tentar saber o porquê logo desistimos porque assim é que está bem e dificilmente conseguiríamos arranjar alternativa melhor.
Cavenca, a minha aldeia natal, detém uma toponímia pouco comum cuja origem é desconhecida, penso eu, de todos os “cavenquenses” e da generalidade das pessoas, precisamente porque os nativos se conformam com o nome e os outros não estão para se incomodar com isso. Porém, a minha curiosidade levou-me a efectuar algumas pesquisas e o resultado é o seguinte:
A toponímia de Cavenca é formada pelo vocábulo de origem latina “covea”, que significa “cova” e deu também “cavus”, que significa “oco”, “covo” ou “concavo”, podendo ainda significar "vale", "depressão", ao qual foi adicionado o sufixo de origem germânica “enc” que exprime pertença, presença ou participação.
Palavras com a mesma raiz e origem há muitas e traduzem, em geral, acções e nomes de lugares: Cavada, Cavadas, Cavadinha, Cavadinho, Cavado, Cavados, Cavanca, Cavenca, Cuenca, Covenca, cava, cavar, escava, escavar…
A explicação, melhor que mil descrições que eu fizesse da configuração do terreno, é a imagem que se segue, uma fotografia aérea propriedade de DAPFOTO (http://www.dapfoto.com).
A origem do Rio Pequeno encontra-se na Cabeça da Fraga, a cerca de 1000 metros de altitude, recortando-se a Corga da Calhe abruptamente até à cota 800, local onde se dá a junção de outros cursos de água, no sítio designado por Portacerdeira, ou Porta Cerdeira (de cerejeira ou cerdo?) e segue depois de forma um pouco mais suave até se juntar ao Rio Mouro ao fundo de Lijó, sensivelmente à cota 350, o que permite avaliar
Lugares com o mesmo nome, que eu conheça, existem três: o lugar de Cavenca, freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção, Cavenca, na freguesia de Longos Vales, ainda em Monção, cuja orografia desconheço mas que, pelas informações obtidas, corresponde à descrição aqui apresentada e Cavenca, no município de Cerdedo (de cerejal) em Pontevedra, que se situa na aba norte de um monte com o mesmo nome, no vale do Rio Seixo.
Fontes:
MEYER Paul et THOMAS Ant., Romania, Paris,1906
SARMENTO, Francisco Martins, Revista de Guimarães, IX-III-MDCCC, p. 76
VARELA, Carlos Solla, Dous Estudos Sobre a Comarca de Cerdedo, IANUA 1 (2000)